sábado, 18 de novembro de 2017

Cronicas da Infância: aquela das novas amizades

Outro dia, ao escrever sobre um episódio da minha infância, um desses que estava presente em muitas dessas histórias de criança pediu-me que fosse trazido a lembrança de quando nos conhecemos: aí vai. Era meados de 1976. Havíamos nos mudado do sítio para cidade. eu tinha 6 anos... Resplendor (MG), cidade muito quente, era o motivo que eu tinha pra andar descalço, sem camisa e de cueca. Normal. Como minha não censurava, nem tampouco eu.
O caminhão de mudança encostou. Estava a uns 20 metros de minha casa. Estiquei-me, debruçando-me pela janela, curioso a saber qual era a configuração dos novos vizinhos (os Stófel). Logo vi um que regulava com a minha idade. Ele estava em cima da carroceria.
Como nunca tive dificuldades de construir novas amizades, e sempre fui agraciado com boas delas. Fui caminhando em direção ao caminhão, com o foco de puxar assunto com o novo amigo... mas ele foi mais rápido que eu: "Porque você está pelado? " , perguntou. Eu me olhei de cima pra baixo no corpo, e respondi: "Não tô pelado. Tô de cueca."  ao que me interpelou: "então. Tá pelado."
Corri pra dentro de casa como quem comera o fruto do conhecimento do bem e do mal... Voltei "vestido" para uma aceitação social plena. Amei e fui amado por aquela família. Tornamo-nos amigos demais. Com grandes aventuras. Até hoje...   Vou escrever mais das histórias com ele.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Crônicas da Infância: daquele dia que aprendi a andar de bicicleta

Bem sei que algumas coisas que escrevo são catárticas: se estou muito: alegre ou triste, equilibra-me as emoções. Escrever me devolve a homeostase que preciso pra viver...
As memórias de infância e adolescência são deliciosos instrumentos para isso. É uma pena que os anos vão passando e, por vezes, esses anos vão roubando algumas dessas memórias.
Quero trazer a escrita de um dia muito especial para mim: o dia que aprendi a andar de bicicleta (com somente duas rodas).
Rodas fizeram parte da minha rotina muito cedo: meu primeiro velocípede (triciclo) ganhei quando tinha 3 pra 4 anos...
A bicicleta veio quanto eu tinha uns 6 anos. Ela tinha rodinhas auxiliares no eixo traseiro. E confiava nessa rodinha, não precisava me equilibrar...
O cenário da libertação das rodinhas era o sítio dos meus pais... na verdade, morávamos todos lá... nessa época, duas irmãs e meu irmão.
Estávamos na cozinha, lugar muito frequentado naquela época, o cômodo maior da casa. Fogão a lenha era aceso antes do sol raiar. O almoço saía por volta das 10h, e a comida ficava o dia todo no fogão, pois as visitas poderiam chegar a qualquer momento, não havia como avisar...
Disse pra minha mãe que eu iria andar de bicicleta no quintal: amplo espaço em torno da casa, a frente com 5 pés de mangas, que coloriam a entrada de nossa casa nos meses de novembro e dezembro... à direita um córrego banhava a propriedade. Aos fundos ficavam a cacimba, criações de porcos, galinhas, alguns animais de montaria... e ás vezes, as juntas de boi que eram usados para puxar o arado (ou mesmo o carro-de-boi) eram guardadas nesse pasto do fundo de casa... pra ficar mais rápido pegá-los... Havia ainda uma grande criação de galos de briga... meu pai gostava disso e na época não havia fiscalização (1974/ 75).
Mas voltemos a bicicleta...
Quando ainda na porta da cozinha, subi na bike de 4 rodinhas, pneus sem câmaras, meu pai disse : "vamos tirar essas rodinhas !!"
Senti um misto de alegria e temor com o desafio dele pra mim ! Fiquei ansioso em pensar que poderia decepcioná-lo em não conseguir... é assim mesmo, quando não conseguimos, achamos que nossos pais se decepcionam... e não é sempre assim...
Meu pai percebeu minha insegurança e o inusitado aconteceu: meu pai já estava com uma chave de boca pra tirar as rodas, quando colocou a chave ao lado da bicicleta, ali, ao lado da porta e disse pra mim: "vem comigo, Saulzinho ..." É , porque o Saul era ele... eu era o Saul pequeno... até hoje, lá em Resplendor sou o Saulzinho, principalmente para os amigos vivos do meu pai (ele partiu em 1994)...
Meu pai foi andando em direção à mangueiras adultas, enfileiradas à direita de quem saía ... antes de chegar a porteira, na última mangueira, alguns empregados deixavam suas bicicletas...
O Saulzão se abaixou pra conversar comigo e disse que equilibrar em bicicletas não era difícil... ele se levantou e, tomando posse de uma das bicicletas de adulto que ali estavam, subiu e andou de bicicleta !! Meu pai andou de bicicleta!! Nunca tinha visto isso ! Em quase seis anos de vida nunca tinha presenciado isto ! Não bastasse andar na bike, meu pai sentou no guidão e pedalou de costas ! Eu ria muito. Ainda não sei se de orgulho ou de nervoso. Ele era meu padrão! E ele anda de bicicleta de costas...
Acho que eu vou dar conta, pensei. Encorajado por ele, agora amparado, a segurança das rodinhas fora substituída pelas mãos do meu pai. Primeiros metros, ele corria ao meu lado, com uma mão no guidão, outra no selim (banco), com a velocidade, ele tirou a mão do guidão, mas continuou no banco... mas de repente, vi que tinha deixado meu pai pra trás... mas fiz isso com o consentimento e apoio dele... fiz isso mais vezes na vida... aos 21 saí  de casa pra estudar... a bicicletinha me levou pra longe... mas essas são outras histórias ...

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cronicas da infância: aquela da primeira vez no mar

Sou mineiro. O mar estava a pouco mais de 100Km de onde nasci. O Espírito Santo é a praia mais próxima... E esse estado tinha de ter esse nome: porque o mar é muito de Deus.
O mar espanta, o mar consola, o mar nos traz a sensação a sensação de infinito... o mar é desafiante.
Mas voltemos aquela viagem de infância com expectativas de conhecer o mar...
Era anos 70, iríamos visitar meus avós, tinham mudado para o litoral capixaba em busca de melhor qualidade de vida: tomaram conhecimento das areias monazíticas, nas praias de Guarapari, a 50Km da Capital.
Eu tinha a promessa de conhecer o mar, já que numa outra visita, ficaram me devendo. Imagina? Fui na Grande Vitória e não fui na praia?
Agora, com os planos de "praiar" , lambia os beiços quando o trem da Estrada de Ferro Vitória a Minas (CVRD) chegava na beira da Baía de Vitória...e lambendo os beiços, claro que lambia um bocado de minério de ferro, pois a mesma estrada é usada até hoje para transportar minério das Minas Gerais para as Siderúrgicas no Município de Serra (ES). A gente ficava cinza de pó nessa viagem... Hoje existem vagões com ar condicionado... nos idos de 70 viajavam galinhas, papagaios e etc...
Chegamos a noite. Por mim, iria na praia naquela hora, nem esperaria o sol chegar.
Tive dificuldade de dormir, estava ansioso e pensando nas figuras que contemplava e apreciava uma grande obra do Criador.
No outro dia cedo mal podia esperar, meu café foi ligeiro, mas parecia que só estava assim: buscavam toalha, chapéu, e outras coisas para levar. Eu não queria levar nada! Eu queria buscar... buscar uma contemplação nunca dantes experimentada. Outras pessoas que haviam ido a praia me contaram. Agora eu teria meu relato, meu jeito... Eu iria buscar os cheiros que as páginas de revistas não traziam...
Não me lembro bem quem me acompanhou... acho que uma de minhas irmãs e o namorado...acho...
O grande momento: sai do carro devagar, cheirava a brisa com o cheiro de sal, pisava nas areias grossas do lugar, escutei de longe as batidas das ondas na praia, como se acariciasse as areias. Não entrei de uma vez. Fiquei medindo a grandeza daquele lugar, continuei devagar, a areia esfriou quando cheguei onde a água encharcava... fiquei ali, onde eram feitas espuminhas, sentia um monte de coisas dentro de mim: deslumbre, alegria, espanto e um pouco de medo... ele merecia meu respeito... entenderia melhor tudo isso, lendo depois "O velho e o mar" de Ernest M. Hemingway.
Muitos anos depois levaria minhas filhas a esta experiência: ver o mar... mas isso é outra história.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DEPENDE DO PONTO DE VISTA


POR JOYCE BOECHAT HENRIQUE DE PAULA


Abri a janela e olhei pra frente. Nenhum sol, dia normal. Apesar de algumas nuvens embelezando o céu, não tinha nada de mais. Muitos prédios, comércios, coisas e pessoas.
Fiquei na janela um tempinho olhando, respirando fundo a poluição da capital...até que reparei um solzinho vindo de lado, bem de leve. Coloquei a cabeça pra fora da janela...e o vi!! O sol tava lá, dando "tchau" pra quinta feira, certo de que cumpriu o que tinha pra fazer hoje. Me senti engraçada por estar feliz em ver o sol. Mas é isso. Eu não tinha visto antes de procurar. E por isso logo concluí que o dia era "como outro qualquer". Mas, na verdade, nunca é!
E dependeu só de mim. Ninguém mais.

Foto: Joyce B. Henrique de Paula



sábado, 7 de janeiro de 2017

LAMENTO DO DESEJO

Num olhar da psicanálise, Soraia Souza Rodrigues escreveu* que o desejo não se trata de algo a ser realizado e que na descoberta de si, descobrimos a falta (nunca completada) e precisamos lidar com a frustração constante...

Lamento não enxergar no cosmos a completude de mim.
Lamento não suportar a frustração da falta... já que o desejo não será abastado sua demanda.
Lamento que o outro seja cobrado pelo que desejo, já que o desejo é de mim.
Lamento o egoísmo do desejo ao idealizar a demanda...
Lamento de mim...
 
http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0158.pdf

 

sexta-feira, 11 de março de 2016

Expectativas frustrantes do ser

Quem é o outro para mim ? Sartre traria uma resposta bastante negativa a esta pergunta, sendo seguido por J. Lacan.
O outro é o ideal de mim. O meu espelhamento. Desejamos no outro uma continuidade de nós mesmos. Nos agradamos em conviver com quem pensa igual ou com quem concorde com tudo o que diga ou penso.
Idealizamos o cônjuge. Queremos nossas respostas carimbadas nos lábios dele. Queremos que o caminho trilhado por ele seja sempre chancelado pelas nossas pegadas. Assim é mais fácil. Não é preciso questionar a mim mesmo. Não sou contrariado nos meus desejos. No mito de Narciso o que é apaixonante é a própria imagem.
Idealizamos os filhos. Queremos que eles cumpram missões frustradas que não pudemos cumprir. Lançamos profecias sobre eles, lhes pesando os ombros com coisas que não deles, são nossas. Por vezes isso pode fazer bem, mas na maioria, não.
O outro é o maior desafio para a convivência saudável. O questionamento de nós mesmos naquilo que nos é tolerável... assim nascem as redes sociais, os grupos de ajuda, as comunidades religiosas, os times esportivos: aglutinação naquilo é essencial e respeito nas diferenças que não essenciais.

Mas o que é essencial?

domingo, 22 de novembro de 2015

CACOS

Tenho esse blog para extravasar emoções: quando muito, quando me entorna, quando transborda, então, buscar transformar esses afetos em palavras me coloca no eixo, me dá luz ao reencontro do caminho.
"Cada um sente de um jeito as coisas..." ouvi isso hoje.
Em algumas décadas atras ouvi que somos chamados a ajuntar cacos, mas não somos chamados a cuidar para que não se quebre... então, quando se vive os riscos de se quebrar não há busca de manutenções;  quebra dos acordos, das relações, das verdades de que se crê.
Ajuntar cacos é o que se há fazer depois que está quebrado. Não há outro caminho. Limpar, descartar ou reciclar e tocar a vida... o que se foi, foi. Não há mais. Há memórias, não há inteiros.
Quando há cacos, não há mais interice, se der para colar os cacos, serão cacos colados, não o inteiro.
O que resta ? Resta a essência, como diria Aristóteles. Os cacos são acidente do acidente. A essencia: areia; o acidente: a peça; outro acidente: os cacos.
Mas no trabalho de ajuntar cacos há que machucar ... necessário é ajuntar...